terça-feira, 2 de junho de 2015

FESTIVAIS E RITUAIS JAINISTAS



RITUAIS E FESTAS

(Texto extraído e traduzido do blog "Jainworld"






O jainismo tem uma agenda muito rica de rituais e festivais. É importante lembrar que estes rituais e festivais não são espetáculos superficiais e frívolos, mas, ao contrário, têm um grande significado e traz muitos benefícios não só para quem deles participa, como, também, para aqueles que, apenas, os assistem. Esses festivais e rituais tem a finalidade de imprimir, de forma permanente, os princípios religiosos na mente de todos. Muitos acontecimentos da vida de Mahavira são encenados, com frequência, de uma forma simbólica; e os símbolos, ações, palavras e imagens de tal encenação se unem para levar a mensagem de Mahavira aos seguidores do jainismo. Para muitas pessoas que consideram os aspectos mais complexos da filosofia religiosa um livro fechado, os rituais oferecem uma direção, um foco que lhes permite expressar a devoção ao Tirthankara. Esses cultos realizados com profunda concentração e pensamentos puros - livres de violências e perversidades - ajudam a dispersar os carmas acumulados da alma.

Os rituais são indissociáveis da vida cotidiana de um devoto jaina. Espalhar grãos para as aves pela manhã, filtrar ou ferver a água para o consumo nas próximas horas são atos rituais  de caridade e não violência. Samayika que é uma prática de meditação que leva a equanimidade, é um ritual realizado no início da manhã, à noite e, às vezes, ao meio dia. Tem a duração de 48 minutos (dois Ghadis - uma trigésima parte do dia - uma unidade indiana de tempo) e envolve, geralmente, não apenas meditação tranquila, mas, também, recitação de orações de rotina. Pratikramana (literalmente em sânscrito quer dizer "introspecção". É um processo reflexivo cuja finalidade é o arrependimento) é um ritual que deve ser realizado - na parte da manhã para o devoto se arrepender dos erros cometidos durante a noite; à noite para arrepender-se dos erros cometidos durante o dia; e em dias específicos do ano. Nesse ato ritualístico o jaina expressa remorso pelas violências que praticou, os danos causados aos outros seres e pelos deveres e obrigações que deixou de cumprir.


A adoração diante dos ídolos jainistas,  curvando-se à eles e acendendo uma lamparina é uma forma ideal de começar o dia para o devoto. Por mais simples que seja a capelinha de adoração doméstica, esta pode lhe proporcionar ambiente adequado para realizar este ritual. Formas mais elaboradas de adoração (puja) são realizadas nos templos. O adorador entra no templo e pronuncia as palavras "Namo Jinanam", que quer dizer "Eu me curvo ao Jina" e repete três vezes a palavra "Nisihi"que quer dizer "desistir". Isto simboliza que ele está renunciando a pensamentos que o reportam a assuntos mundanos e direcionando sua mente e seu coração para os assuntos espirituais. Os membros de algumas seitas jainistas não acreditam na adoração de imagens. Eles preferem expressar sua religiosidade através de meditação e orações silenciosas.


O culto (puja) pode assumir muitas formas. O ritual de banhar a imagem (Snatra Puja) é simbólico. Representa o banho dado pelos deuses celestiais a um ser quando atinge a categoria de Tirthankara. Um ato simbólico, também, praticado pelo devoto é molhar a própria testa com o líquido usado para banhar o ídolo. Banhar o ídolo ocorre, igualmente, durante o Panch Kalyanak Puja, um ritual que celebra os cinco grandes acontecimentos da vida do Tirthankara, ou seja, concepção, nascimento, renúncia, onisciência e moksha. Outro ritual é o Antaraya Karma Puja que compreende uma série de orações para remover os carmas que obstruem o poder de elevação espiritual da alma. Um ritual  demorado, praticado no templo, que pode levar até três dias para ser concluído é o Arihanta Puja - uma demonstração de respeito e devoção aos Arihantas. Existe, também um ritual de oração - o Siddha-chakra Puja - focado nos chakras das cinco categorias de seres louváveis ou iluminados - Arihantas, Siddhas, Acharyas, Upadhyayas e Sadhus (e Sadhvis) - bem como nas quatro qualidades de elevação da alma, ou seja, a percepção, o conhecimento, a conduta e a austeridade.


Deve-se dizer que existe uma estreita linha divisória entre o simbolismo e a superstição. Alguma pessoas que se dizem racionais, abolem todos os rituais tomando-os como supersticiosos. Isso é um grande mal entendido. Os ídolos jainas não têm poderes miraculosos, contudo o esplendor do templo, a beleza das orações e cânticos, tudo, ajuda o adorador a atingir um estado de espírito reverente. Certo, que alguma pessoas podem atingir esse estado sem precisar de adereços externos, mas nem por isso devem desprezar aqueles que os valorizam.


Na Índia o calendário solar (utilizado na Europa e países do Ocidente) é, geralmente, utilizado para as questões empresariais e governamentais, porém as festas religiosas são datadas de acordo com o calendário lunar (indiano). Este calendário é bastante simples, entretanto, como ele é baseado nas fases da lua, as datas não são sempre as mesmas de ano para ano como no calendário solar.






O devoto leigo jainista leva a sério a prática do jejum. Jejuam, parcial ou completamente, e realizam, mesclado a essa prática, outras formas de adoração religiosa em muitos dias auspiciosos do ano. Muitos jainistas, os mais fervorosos, conseguem jejuar até 10 dias em determinado mês do ano, outros, não tão fervorosos, jejuam, mas por um período de tempo menor. O primeiro dia das três estações do ano  indiana é, de especial santidade e os jainistas costumam renunciar aos alimentos nesses dias. Duas vezes por ano - em março/abril e setembro/outubro - também é um tempo de jejum jaina. O tipo de jejum feito nesse período chama-se Navapad oli - é um semi jejum observado durante nove dias; o jainista pode comer apenas uma refeição diária e os alimentos têm que ser os mais simples. O festival de Maun Ekadasi (também conhecido como Maun Agyaras) cai em novembro/dezembro; é um dia de completo silêncio, o jejum é mantido e a meditação é dirigida aos cinco seres iluminados - Arihantas, Siddhas, Acharyas, Upadhyayas e Sadhus (e Sadhvis); este dia é considerado o aniversário do nascimento de muitos dos Tirthankaras.





Mahavira nasceu provavelmente no ano de 599 a.C.. A data exata que consta nas escrituras é como sendo no décimo terceiro dia da metade brilhante (ou seja, quando a lua estava encerrando) do mês Chaitra. No calendário solar isto cai em março ou abril. O festival comemorativo desta data é conhecido como Mahavira Jayanti e é uma ocasião de grande pompa. Jainistas se reúnem para ouvir a mensagem que Mahavira expôs de modo que possam seguir seus ensinamentos e exemplos. Os sonhos que a mãe de Mahavira teve antes de seu nascimento são teatralizados e as circunstâncias de sua natividade, segundo as escrituras, são explicadas ao povo reunido. O ídolo de Mahavira no decorrer do cerimonial é banhado e balançado em um berço. Em muitos lugares as procissões acontecem pelas ruas com a imagem tendo o lugar de honra; em algumas regiões da Índia este dia é feriado.  


A Paryushana Parva é a festa mais importante para os jainistas. Este é o período em que durante oito dias muitos jainistas jejuam e realizam atividades religiosas. Ele cai nos meses de Sravana e Bhadra (agosto ou setembro). Durante a estação chuvosa na Índia os monges jainas param de andar de uma cidade para outra; eles  se estabelecem em um local fixo com o objetivo de reduzir qualquer dano que possam causar aos outros seres vivos, já que nesta época a natureza eclode prenhe de vida. Muitas vezes, um município convida monges respeitáveis para ficar em suas proximidades (quase sempre por meio de um convite adornado e muito bem escrito); as pessoas recebem-nos com grande gala e rituais. Um ciclo de palestras e sermões ministrados por monges ou alguém venerável são características habituais da Paryusana Parva.


Nota: Paryushana Parva é um dos festivais jainistas mais importantes. É comemorado todos os anos durante o mês auspicioso de Bhadra (meados de agosto e meados de setembro). É um festival de jejum e perdão; um tempo de reflexão e arrependimento para os jainas de todo o mundo. 

A palavra Paryushana tem diferentes interpretações.  Ela pode significar:

- ficarmos mais perto de nossa própria alma.

- queimarmos nosso carma ruim
- suprimirmos nossos pensamentos, palavras e ações negativas.

A Paryushana Parva é um período de arrependimento para os atos errôneos cometidos no ano anterior e de austeridades para ajudar a verter os carmas acumulados. Deve ser lembrado, também, que as austeridades não são apenas para queimar os carmas, mas, concomitantemente, para controlar o desejo dos prazeres sensuais como parte da formação espiritual para evitar a acumulação de novos carmas. Algumas pessoas jejuam durante os oito dias, outras jejuam por períodos menores (é sugerido nas escrituras o mínimo de três dias), no entanto é considerado obrigatório o jejum no último dia da Paryushana Parva. O jejum, geralmente, envolve a abstinência completa de qualquer tipo de comida ou bebida, mas algumas pessoas tomam água fervida durante o dia.


Há cerimônias regulares no templo e discursos do Kalpa Sutra (um dos livros sagrados) durante esse tempo. O Kalpa Sutra contém o relato detalhado da vida de Mahavira e é lido para a congregação. No terceiro dia o Kalpa Sutra recebe uma homenagem muito especial e é levado com muita reverência numa procissão. No quinto dia, em uma cerimônia bastante expressiva os sonhos auspiciosos da mãe de Mahavira são teatralizados. Ouvir a leitura das Escrituras, tomar medidas ativas que impeçam a matança de animais, pedir e ofertar perdão à todos os seres vivos, visitar os templos da região são algumas das atividades importante nesses dias de festa.


O último dia da Paryusana é o mais importante de todos. Isto porque aqueles que observaram os jejuns no decorrer desse evento são especialmente honrados.  Uma outra razão é porque os jainistas, nesta data, pedem perdão aos familiares, amigos e inimigos por quaisquer atos condenáveis que possam ter cometido para com eles no ano anterior. Após essas etapas é costume todos os jainistas confraternizarem e renovarem os laços de amizade uns com os outros - independente de seu status sócio-econômico - num jantar previamente organizado chamado Swami Vatsalya.





Diwali ou Deepawali é o festival mais importante para todos os habitantes da Índia. Para os jainistas é o segundo mais importante (o primeiro é a Paryusana Parva). Para os jainas Diwali marca o aniversário da Moksha de Mahavira. Mahavira atingiu a libertação neste dia no ano de 527 a.C. (neste dia seu seguidor chefe, Gautama Indrabhuti, também, atingiu a realização de total conhecimento e onisciência). Este festival cai no último dia do mês de Ashvina, o final do ano, conforme o calendário indiano (outubro ou novembro). A abertura dessa celebração acontece no início da manhã do dia anterior, pois foi quando Mahavira fez seu último sermão; sermão esse que durou até tarde da noite de Diwali. Segundo narrativas, os dezoito reis do norte da Índia que estavam em sua audiência decidiram que a luz do conhecimento de seu mestre seria mantida viva, simbolicamente, pela iluminação das lamparinas. Por isso é chamado Deepawali (dipa significa lamparina).

O Ano Novo começa no dia seguinte e é a ocasião para encontros alegres de jainistas; todos desejando uns aos outros um Feliz Ano Novo.

O quinto dia do Ano Novo é conhecido como Jnana Paanchami, o Dia do Conhecimento, quando as Escrituras, que transmitem real conhecimento às pessoas, são adoradas com devoção. 

Vamos terminar este capítulo com a oração jaina do perdão. Os jainistas buscam o perdão, não de um deus todo-poderoso e, sim, de todos aqueles seres vivos a quem causaram algum dano.


Eu perdoo todos os seres vivos;
que todos os seres vivos me perdoem;
todos neste mundo são meus amigos;
eu não tenho inimigos.

Khamemi savve jive,
Jiva sawe me khamantu,
Me mitti bhuesu sawa,
Veram majza na kenai.



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